sábado, 11 de setembro de 2010

Uma agenda para o voto consciente por parte dos evangélicos

Estou compartilhando este texto do Franklin Ferreira, publicado originalmente no blog da fiel.

 "A política é o espaço do bem comum", podendo ser, portanto, entendida como uma forma de praticar o amor cristão, na medida em que, "através dela, o bem e a justiça podem chegar a todos". Mas para que isso aconteça, é necessário que "a ação política seja baseada em valores éticos". Além disso, a transformação da conjuntura social de acordo com a cosmovisão cristã é, também, uma forma de evangelizar. Portanto, com o objetivo de propor o voto consciente e responsável aos cristãos evangélicos, sugerimos alguns elementos que deverão ser considerados na hora da sua escolha eleitoral:
1. "Conhecer as idéias e valores do candidato e sua história pessoal", pois somente assim "é possível avaliar bem os compromissos da campanha eleitoral. Decência pessoal e escala de valores, orientada para o interesse público, é o que se deve buscar num candidato". Se ele se identifica como cristão, é importante saber a que igreja ou comunidade ele está filiado, e se ele a freqüenta regularmente, buscando conselho e prestando contas à mesma.
2. Também se deve considerar se seus projetos estão de acordo com os do partido ao qual ele está filiado, pois ao votar em um candidato vota-se também num partido, ajudando a eleger candidatos do mesmo partido. Por isso, é preciso conhecer os programas e a filosofia do partido. No caso de candidatos evangélicos, se deve averiguar se estes e seus partidos não somente afirmam, mas estão comprometidos com a separação entre a igreja e o estado, lembrando que toda autoridade procede de Deus.
3. Lutar contra todas as formas de corrupção (a) apoiando mecanismos de controle do uso do dinheiro público e das prioridades do governo; (b) colaborando para que projetos tais como o Ficha Limpa, que tratem sobre a ética nas eleições, sejam conhecidos e aplicados; (c) denunciando o uso da máquina administrativa federal, estadual ou municipal para favorecer determinados candidatos; (d) em conformidade com a lei no 9.840, denunciando a compra de votos através de dinheiro ou promessas de vantagens pessoais, assim como quem obrigue os eleitores a votar em determinados candidatos, seja por meio de ameaças, seja através de pressão religiosa.
4. Apoiar propostas que defendam a vida e a dignidade do ser humano em qualquer circunstância. "A vida humana é sagrada, desde sua concepção até a morte natural". Portanto, defender a vida inclui (a) combater o aborto e a eutanásia; (b) reprimir a violência por meio de políticas de segurança pública realistas; (c) promover uma ética do trabalho que enfatize virtudes bíblicas tais como honestidade, pontualidade, diligência, obediência ao quarto mandamento ("seis dias trabalharás"), obediência ao oitavo mandamento ("não furtarás") e obediência ao décimo mandamento ("não cobiçarás"); (d) defender o direito à propriedade privada como direito fundamental (cf. Êx 20.15, 17; 1Rs 21).
5. "Analisar se o candidato defende a liberdade de educação e a formação integral do ser humano, inclusive em sua dimensão religiosa", deste modo promovendo uma escola digna e de qualidade para todos. Verificar também se ele promove as liberdades individuais, por meio do estabelecimento de normas gerais de conduta, que redundem em liberdade de expressão, associação e de imprensa.
6. Rejeitar candidatos e partidos com ênfases estatizantes e intervencionistas nas esferas familiar, eclesiástica, artística, trabalhista e escolar, que conceba um ambiente onde se tem pouca ou nenhuma liberdade pessoal e nenhuma liberdade econômica. Para a fé cristã, a família, a igreja, o trabalho e a escola são esferas independentes do estado, pois existem sem este, derivando sua autoridade somente de Deus. Logo, o papel do estado é mediador, intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito entre si ou para defender os fracos contra o abuso dos demais. Conseqüentemente, os cristãos devem resistir a todo sistema político totalitário (cf. At 5.29; Ap 13.1-18).
7. Repudiar ministros, igrejas ou denominações que tentem identificar determinada ideologia com o reino de Deus ou com a mensagem bíblica. Como afirma a Declaração de Barmen [8.18], "rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel-prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes". A igreja, ao proclamar com fidelidade a Palavra de Deus, influencia o estado, de modo que suas leis se conformem com a vontade de Deus, decorrendo daí conseqüências políticas de tal fidelidade ao chamado primário da comunidade cristã.
8. Apoiar candidatos comprometidos com propostas e leis que sejam derivadas da lei de Deus, como revelada nas Escrituras, posto que esta é a fonte absoluta e final da ética pessoal, eclesiástica e social. Há que se ter compromisso por parte do candidato com o contrato social, que é um acordo entre os membros de uma sociedade pelo qual reconhecem a autoridade sobre todos de um conjunto de regras, a constituição, que limita o poder, organiza o estado e define direitos e garantias fundamentais.
9. Valorizar candidatos e partidos comprometidos com o modelo republicano de governo, no qual a nação é governada pela lei constitucional e administrada por representantes eleitos pelo povo, assim como a divisão e a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário, de modo que nenhum governo ou ramo do governo monopolize o poder. Assim também valorizar aqueles que respeitem a alternância do poder civil, que impede que um partido ou autoridade se perpetue no poder, assim como a defesa do pluralismo político e partidário.
10. Apoiar candidatos que enfatizem as funções primordiais do Estado, onde os governantes têm a obrigação de zelar pela segurança do povo, pela qual pagamos tributos (cf. Rm 13.1-7), assim como ressaltem a limitação do poder do estado, pois a partir das Escrituras, entende-se que o governo civil não tem autoridade para impor impostos exorbitantes, redistribuir propriedades ou renda, criar zonas francas ou confiscar depósitos bancários.
Pedimos que o Cristo Rei, o único e absoluto soberano e Senhor, nos sustente e nos conduza sempre em nossas opções políticas. Façamos destas eleições um gesto de amor a este país e a nossos irmãos e irmãs, para maior glória de Deus.
Bibliografia para aprofundamento:
• "A Declaração Teológica de Barmen", em A Constituição da Igreja Presbiteriana Unida dos Estados Unidos da América, Parte 1: Livro de Confissões (São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969), 8.01-8.28.
• Johannes Althusius, Política (Rio de Janeiro: Top Books, 2003).
• Alain Besançon, A infelicidade do século (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000).
• João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. ed. latina de 1559 (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), IV.20.1-32.
• W. Gary Crampton & Richard E. Bacon, Em direção a uma cosmovisão cristã (Brasília: Monergismo, 2009).
• Abraham Kuyper, Calvinismo (São Paulo: Cultura Cristã, 2002).
• Augustus Nicodemus Lopes, Ética na política e a universidade: Carta de princípios 2006 (São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2006).
• F. Solano Portela, "Estado e política em João Calvino, na Confissão de Fé de Westminster e em Abraham Kuyper", em Franklin Ferreira (ed.), "A glória de sua graça": ensaios em honra a J. Richard Denham (São José dos Campos, Fiel, 2010), no prelo.
• Francis Schaeffer, A igreja no século 21(São Paulo: Cultura Cristã, 2010).
Voto consciente: dever do cristão (Rio de Janeiro: Arquidiocese do Rio de Janeiro, s/d).
 


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

NOÇÕES GERAIS SOBRE A TEOLOGIA SISTEMÁTICA.

Faça um comentário abaixo sobre o texto e sua relevância.

 

NOÇÕES GERAIS SOBRE A TEOLOGIA SISTEMÁTICA.

O QUE É TEOLOGIA SISTEMÁTICA?

            Ela é uma ciência cognitiva[1] que trata de Deus e Suas relações com o homem e com o mundo, duma forma analisada, testada e integrada, apresentando a verdade revelada num conjunto harmônico e topicamente estruturado. O alvo do teólogo sistemático é

usar a sua mente para aprender e afirmar, tanto quanto possível em ordem, todas as coisas que Deus ensina nas Escrituras, assim como ser capaz, então, de ir a Deus cognitivamente no exercício da fé e oração, e para discernir Sua vontade em cada situação, para a prática de uma obediência fiel[2].

            Assim, a Teologia Sistemática, mesmo sendo uma ciência cognitiva, é parte integrante da vida. Ela penetra o todo da nossa vida porque ela trata de nossas relações com Deus e tudo isso é e deve estar relacionado com a nossa vida na sociedade em que vivemos.

            Temos que restaurar a importância da Teologia Sistemática para a vida da igreja. Mas para isso ela tem que ser centrada na Escritura, ser teocêntrica, e ser útil para este mundo em mudança. A Teologia Sistemática deve ser apresentada como uma resposta aos reclamos da presente geração para que a presente geração se adapte ao evangelho de Jesus Cristo. A Teologia Sistemática  não deve ser dissociada do mundo em que vive. Ela deve ser uma apresentação das verdades reveladas de tal forma que a presente geração possa entendê-la e ser transformada pelos conceitos corretos elaborados por ela, através da aplicação do Espírito Santo.

            Ela é um departamento da Teologia que está intimamente ligado com os outros departamentos, mas

"não devemos nunca nos esquecer de que toda a Teologia Sistemática é um arranjo debaixo de divisões apropriadas, do testemunho total da revelação das verdades com respeito a Deus e de suas relações com o mundo. Visto que a Bíblia é a principal fonte de revelação e é a Palavra de Deus, a Sistemática é a disciplina que, mais do que outra qualquer, reivindica confrontar-nos, os homens, com o próprio testemunho de Deus de tal modo em sua totalidade que ela pode fazer com que o impacto sobre nossos corações e mentes pelos quais seremos conformados à Sua imagem em conhecimento, justiça e santidade da verdade[3]".

NECESSIDADE DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA[4].

            Alguém poderia perguntar: "Por quê as verdades da Escritura, como as temos, tem que ser estudadas sistematicamente? Por quê temos o trabalho de tentar relacioná-las e harmonizá-las"?

            Hodge dá algumas respostas a essas perguntas:

1.         Nenhuma área do conhecimento humano possui homens que estejam satisfeitos com as verdades de fatos sem que estes estejam relacionados e harmonizados.

            A mente humana trabalha de tal forma que ela exige a concatenação dos fatos, e estes devem ser apresentados harmoniosa e sistematicamente para um melhor aprendizado. É por esta razão que a Escritura deve ser apresentada sistematicamente para uma melhor compreensão dela como um todo.

2.         O mais alto grau de conhecimento não é obtido pelo simples acúmulo de fatos isolados.

            Para que conheçamos o planeta terra não basta conhecer os oceanos, os países, ilhas, montanhas, etc. É necessário conhecer tudo num conjunto, suas causas, a 'razão, o como e o por quê' da distribuição das terras e mares, da origem das montanhas, clima, as raças, a vida animal e vegetal, etc. Há a necessidade de uma idéia de conjunto das verdades harmonizadas para que conheçamos uma ciência.

            O que é verdadeiro das outras ciências também o é da Teologia. Não podemos conhecer o que Deus tem revelado na Sua Palavra a menos que entendamos, ao menos em alguma medida, a relação nas quais as verdades separadas estejam relacionadas umas às outras.

3.         Não temos outra escolha neste assunto. Se somos defensores da verdade de Deus, temos que conhecê-la suficientemente bem para poder ensiná-la. E a única maneira de conhecê-la bem é sistematizá-la. Na Teologia Sistemática podemos ter uma noção do conjunto da revelação divina.

4.         Porque Deus quer que conheçamos a sua verdade de maneira sistematizada. Deus não ensina aos homens a química ou a biologia, mas Ele dá aos homens os fatos que são a matéria para se construir as ciências.

            Deus não ensina a Teologia aos homens. Ele dá o material para que façamos Teologia, que é a revelação divina registrada na Escritura, a qual propriamente entendida e arranjada, constitui a ciência da Teologia.

            Como os fatos da natureza estão todos ligados e determinados por leis físicas, assim os fatos da Bíblia estão todos ligados e determinados pela natureza de Deus e de Suas criaturas.

            A despeito das Escrituras não serem um compendio de Teologia Sistemática como um todo, há algumas epistolas do N.T. que são, de algum modo, porções desse sistema que vieram às nossas mãos.

 

 

Material produzido pelo Dr. Héber Carlos Campos.



[1] J.I. Packer, "Is Systematic Theology a Mirage? An Introductory Discussion", in Doing Theology in Today's World, p.18.

[2] Packer, op.cit.p.25.

[3] John Murray, "Systematic Theology, II, Westminster Theological Journal, vol. 26, 1963-64, p. 46.

[4] Ver Charles Hodge, Systematic Theology, vol. 1 (Grand Rapids; Eardman's, 1981), p. 2.