Tensões no culto evangélico brasileiro
07/06/2004 10:14:23 Uma das áreas mais polêmicas dentro do Cristianismo é exatamente aquela em que deveria haver mais harmonia e consenso entre os cristãos, ou seja, o culto. Através da sua história, a Igreja Cristã vem se debatendo com disputas, discussões e discordâncias quanto a alguns importantes aspectos relacionados com o serviço divino. E o debate, naturalmente, está presente na igreja evangélica brasileira.Por exemplo, a questão da organização versus liberdade na liturgia. Até que ponto podemos organizar e estruturar a ordem ou seqüência dos atos de cultos sem que isso tire a espontaneidade dos participantes? Ou mais grave ainda, até que ponto a própria idéia de preparar uma liturgia antecipadamente já não representa uma limitação à liberdade do Espírito de Deus em dirigir o culto como deseja? Igrejas, movimentos e grupos dentro do evangelicalismo brasileiro têm assumido as vezes lados radicalmente opostos nessa questão. De um lado temos liturgias elaboradas milimetricamente, realizadas por ministros paramentados de acordo com o calendário eclesiástico e as estações do ano, exigindo formalidade, seriedade e reverência; de outro, cultos sem qualquer ordem ou seqüência pré-estabelecidos, onde as coisas acontecem ao sabor da inspiração momentânea do dirigente, supostamente debaixo da orientação do Espírito de Deus. Felizmente, onde predomina o bom senso e um desejo de seguir os princípios bíblicos para o culto a Deus, adota-se uma liturgia que procura usar o que há de melhor nos dois esquemas, unindo seriedade reverente com liberdade exultante.
Outra tensão é entre ofício e participação . Quem deve dirigir o culto a Deus? Quem pode participar ativamente na liturgia? Somente aqueles que foram ordenados para isso – pastores e presbíteros? Ou qualquer membro da comunidade? Respostas variadas têm sido dadas a essas questões por diferentes grupos evangélicos no Brasil. Por um lado encontramos igrejas que entendem que apenas aqueles que foram treinados adequadamente e posteriormente autorizados (ordenados) pela igreja é que podem participar ativamente do serviço divino. Outros grupos, como os quacres do passado e alguns movimentos quietistas modernos, rejeitam a própria idéia de ofício e dispensam qualquer ordem ou liderança no culto público. Encontramos nas igrejas evangélicas brasileiras variações desses extremos. Parece-nos claro que o caminho correto é manter no culto a liderança claramente bíblica dos presbíteros e pastores e ao mesmo tempo procurar entre os não-ordenados aqueles que têm dons públicos que possam, após treinamento adequado, participar ativamente da liturgia.
Mais uma tensão: formalismo versus simplicidade . Relacionada com esta vem a tensão entre solenidade e alegria . Esses extremos na verdade não se excluem. São todos elementos do culto bíblico, muito embora em sua história, a Igreja tenha por vezes enfatizado uns em detrimento dos outros. Mais uma vez, a busca pelo equilíbrio bíblico deve marcar a liturgia das igrejas evangélicas.
Mas existe ainda uma tensão – talvez a um nível mais profundo – que representa um sério desafio para a liturgia da Igreja, que é mente versus coração . Ou mais exatamente, qual o lugar da mente no culto? Pode-se cultivar o entendimento e o crescimento intelectual sem perder-se de vista o papel do coração no culto? Um culto só é realmente espiritual se a mente for deixada de lado e o coração envolver-se inteiramente? Muitos grupos evangélicos hoje responderiam sem hesitar que a mente acaba por representar um obstáculo na experiência da verdadeira adoração, e que deve ser deixada de lado para que as emoções fluam livremente. Desse ponto de vista, as partes do culto, e especialmente a pregação, devem facilitar a experiência litúrgica. A pregação acaba por ser relegada a plano secundário, sendo substituída por relatos de experiências pessoais; ou quando é feita, via de regra (há exceções) é uma coleção de casos, exemplos e experiências, intermediados aqui e ali por trechos bíblicos nunca expostos e explicados, mas citados como prova.
Mas essa tendência é bem antiga. Paulo teve que corrigir o desequilíbrio litúrgico dos coríntios, com sua ênfase na participação, uso dos dons, liberdade e pouca atenção à instrução e o uso da mente. Modernamente, percebe-se sem muito esforço a tendência de se enfatizar participação, louvor, testemunhos, dramas e corais, em detrimento da pregação da Palavra durante os cultos dominicais de muitas igrejas.
É essa última tensão que tem questionado com mais radicalidade a natureza, necessidade e propósito da pregação nos cultos. O que nos parece fundamental neste assunto é que, desde o início, Deus usou a pregação expositiva de sua Palavra como veículo de revelação da Sua vontade ao Seu povo; e que portanto, a pregação nunca deve ser relegada a plano secundário no culto, mas deve sempre ocupar lugar central de destaque.
Estas são algumas das tensões na igreja evangélica brasileira quanto ao culto. Nem sempre elas têm sido bem resolvidas. Provavelmente, o caminho para um culto que seja bíblico e brasileiro tenha de passar pelas seguintes vertentes:
1) Empregar o princípio de que devemos manter no culto somente aqueles elementos que possam, de forma direta ou indireta, encontrar respaldo nas Escrituras do Novo Testamento. De outra forma, desprovida de referencial, a igreja brasileira não terá como impedir a avalanche de inovações no culto, algumas bem intencionadas porém apócrifas, e outras inspiradas até em práticas das religiões afro-brasileiras.
2) Reconhecer que há circunstâncias do culto que não estão necessariamente definidas, proibidas, ou ordenadas nas Escrituras, e que podem ser adotadas à critério das igrejas, respeitada a história, a tradição, a cultura e especialmente o bom senso.
3) A busca do equilíbrio nas tensões mencionadas acima, reconhecendo que qualquer dos extremos citados termina prejudicando o culto, por reduzi-lo e privá-lo da plenitude desejada por Deus.
O culto é certamente um dos aspectos mais centrais da vida das igrejas evangélicas, pois nele deságuam as doutrinas, as crenças, as práticas, as tensões e a vida espiritual das comunidades. Uma igreja é aquilo que seu culto é. Como parte da sua reflexão e reforma, a igreja evangélica brasileira deveria enfocar mais este assunto
- AUTOR
Teste de comentário
ResponderExcluirGostei do artigo apresentado por Augustus Nicodemus, concordo com o que ele disse, e na minha opinião, acredito que o aspecto central do culto é a pregação da palavra de Deus, e além disso ter uma litúrgia bíblica, realizada por pessoas preparadas, para que assim o culto a Deus seja feito com reverência e excelência.
ResponderExcluirNeto
ResponderExcluirEsse artigo apresentado por Augustus Nocodemus, é realmete o que estamos enfretando a respeito dos cultos nas igrejas hoje. Infelismente muitos
estão preocupado apenas com a a forma de uma igreja e não preocupado com a essencia da palavra que no meu ponto de vista devemos ter.
Não podemos fugir jamais da essencia da palavra. Se obedecermos a palavra estaremos sempre a cada dia que passa obtendo o equilibrio que é fundamental para todos nos. A respeito de apenas estar a frente os pastores e presbiteros não concordo,acredito que todos que reconheceram a Cristo como unico Salvador,e se realmente tornou uma nova criatura pode estar a frente de qualquer trabalho da igreja.
Franklin Mangueira
ResponderExcluirO texto de Augusto Nicodemos Lopes é muito interessante pois se volta a liturgia do culto, hoje atualmente um tema que tem sido focado no Brasil devido a grande variedade e formas como se tem instituído. Pode-se notar que existem cultos que são verdadeiros shows, onde o foco é agradar ao público e não levá-los a adoração a Deus. Isso tem se tornado um problema, porque as pessoas além de perderem o foco do culto irão ter um prazer momentâneo, mas quando sairem da igreja não saberão lhe lidar com as circunstâncias que viram em suas vidas lá fora, pois quando elas conhecem a verdade com certeza os seus corações ficaram mais tranquilos e fortalecidos com a palavra de Deus que os guiará por um caminho certo. Sabemos que muitas vezes a intenção é boa, porém essas intenções muitas vezes não agradam a Deus e não ajudam em nada!
As nossas lideranças brasileiras devem realmente se atualizarem e se reformarem com relação a teologia e a bíblia e entender o que querem dizer, devem entender que o mais importante em todo o culto é a pregação da palavra, isso deve ser infundido em suas mentes como foco principal de todas as coisas, é o que realmente vai fazer as pessoas mudarem, entenderem e até se situarem em suas vidas entendendo que muitas vezes estão passando por tais situações porque é à vontade de Deus.
gostei
ResponderExcluirTiago - É muito interessante este artigo que o Augusto Nicodemos apresenta, pois se nó formos observar, tem surgido muitos movimentos que tem se esquecido do valor da pregação da Palavra de Deus, e tem se preocupado apenas com movimentos... Nos quais trazem apenas conforto para o corpo, mas não alivio para a alma. Mas graças a Deus que ainda existem aqueles que são apaixonados pela Palavra de Deus...
ResponderExcluirO artigo é bastante pertinente, porém entendo que o culto além de todos esses aspectos da importância dos elementos e a primazia da Palavra, penso que o culto na verdade tem a ver com o estado de espírito do cultuante, isso é apaixonar-se pelo seu Deus. Não devemos viver tensionados no frágio fio entre a mente e o coração esquivando-se das seduções de uma manifestação emocional mais forte e ao mesmo tempo fugir de uma liturgia que assemelha-se a um ritual fúnebre com regime quartelista. O que precisamos é de entregar-se volitivamente apaixonados, interagir com Deus, ansiar pelo culto de domingo na manhã da segunda, preparar-se como uma noiva para o seu casamento que não consegue conter o suor de suas mãos gélidas ao adornar-se e que no primeiro passo dentro do recinto da celebração não da conta dos seus batimentos por saber que aquele que está a sua espera transcende todo pensamento sistemático ou filosófico e que morreu de tanto amar, amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e força (Deut. 6:5 ARA), permitir que as lágrimas rolem, que o coração se quebrante, que o sorriso gargalhe rompendo avalanches de sentimentos teológicos precisos e intenso e não distorcidos e carrancudos.
ResponderExcluirO artigo do Rev. Augusto NIcodemos é de vital importância para a Igreja brasileira hoje, até mesmo pelo processo de modificação que tem sofrido.
ResponderExcluirAcho que as bases apresentadas pelo autor no fim do artigo são de grande relevância para alcançar um culto que seja caracterzado pelo equilibrio entre o sentimento humano e o seu racional, de forma que um possam continuar presente na nossa liturgia sem trazer mais desgaste e até morte em nossas liturgias, pelo excesso de romântismo ou de racionalismo mascarado.
A busca da luz do Novo Testamento para esse equilibrio é essencial, respeitando os atos de cultos descritos e orientados pelas escrituras sagradas como oração, louvor, leitura da palavra e outros.
Assim como o autor deseja que a Igreja brasileira tenha uma caracteristica propria em sua liturgia onde entra a nossa história, cultura, tendo o bom senso presente sempre.
Por fim oro para que a Igreja brasileira seja centrada nas escrituras, buscando o equilibrio e o bom senso na sua nova formação de liturgia.
Creio que as escrituras sagradas é INFALÍVEL em nossos dias, portanto podemos consulta-la e entregar-mos nossas vidas e igrejas em sua direção em todas as circustâncias.
Forte abraço a todos.
Abraço com bençãos.
Augusto Nicodemos traz um questionamento muito interessante, principalmente no mundo hodierno. Penso que o culto cristão é um ato de resposta à ação bondosa de Deus. Sendo que de nada adianta apresentar-se a Deus com lindos cânticos, boa música, palavras belamente escolhidas, ofertas nas mãos, se no dia-a-dia não praticamos, pois o culto é um reflexo do estado de espírito do cultuante. Concordo com Augusto ao afirmar que no culto deve haver o equilíbrio nas tensões mencionadas em seu artigo, reconhecendo que qualquer dos extremos citados termina prejudicando o culto. E por fim penso que o culto deve ser caracterizado por ter como alicerce a palavra Deus, tendo sempre como objetivo final a exaltação do mesmo.
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